O drama de começar… Nada mais a comentar… Olha-se para um lado… e para o outro também. Os dedos manejam tudo que há com a intenção de enrolar. Há coisas para fazer, mas a distração quer me vencer. Um bloqueio fenomenal impede as palavras bagunçadas na cabeça, as ideias disformes e impalpáveis de se manifestarem. Tudo voa longe, tudo inalcançável. Tudo parece duro. Tudo intimidante. O drama de começar… Tudo por ainda comentar, tudo por ainda explorar. Parir as primeiras palavras é difícil demais, tal qual expulsar a cabeça de um feto, por vezes indesejável, por vezes queremos que volte para dentro para consertar e sair algo mais bonito, mais perfeito. O início é imperfeito. O início é cheio de potencial, mas intimida. O início é tudo. O início é vazio. O início é você olhando para todas as direções sem saber para onde ir.
Eu sobro. Sou o resto. O que fica para trás. O que é esquecido. O que não chama atenção. O que não gera interesse. Sou o lixo. O que depois de anos ocupando espaço num armário é posto fora, incomoda.
Sou a sobra… ou a conveniência. Aquilo que preservam se um dia se mostrar necessário.
Sou chato e ninguém quer saber disso.
Carambola
Labirinto
Tomate
Te vi andando na estrada
Dá uma bala pra mim?
Mim lá, você aqui
Caqui
Parece um tomate
Te vi andando por aí
Morri.
Quando passei por aquela porta não esperava encontrar aquele tipo de espelunca, esperava qualquer outro tipo de espelunca, mas não aquela espelunca. O lugar era escuro e quente, mal adentrei e senti o bafo quente em minha cara. Sem parar para pensar afrouxei o colarinho da camisa, se pensei em alguma coisa naquele momento, pensei em sair, sentia-me desconfortável e tinha outras coisas para fazer.
Entrei. Fui até o bar. Demorei para sentar em um dos altos bancos, preferindo olhar a vasta seleção de garrafas de bebidas alcoólicas, garrafas coloridas, com líquidos coloridos, com rótulos coloridos.
Nunca fui de beber. Não gostava dos sabores amargos. Reprovavam-me por isso e eu ficava apenas no refrigerante ou num suquinho de fruta. Fruta.
Algumas pessoas tentam definir a masculinidade de outra pelo que ela bebe. Quanto mais torra-tripas a bebida, mais macho você é. Quanto mais doses você toma sem despencar, mais macho você é.
É preciso ser homem para viver neste mundo. Muito homem. E o melhor termômetro para medir isto é seu nível de tolerância alcoólica. Minha fraqueza então é imensa. Sequer lembro de tomar um porre. Sou de uma frouxidão sem tamanho e as pessoas não faziam questão da minha companhia. Se você não é homem o bastante não merece ser admirado. O que são “amigos” hoje senão seguidores?
Seguidores exigentes. Que te sugam. Que precisam ser bajulados. Parece que não há melhor bajulação do que a imitação. Veja a si mesmo naqueles a sua volta. Narciso. Seja igual a alguém e você será legal. Até chegar ao ponto em que todos seremos cópias de um original que não pode mais ser encontrado.
Por isso todos devemos ser homens, até as mulheres devem ser homens!
Pode ser condenável isso que falo, certamente incomodará muita gente, mas, apesar de minha frouxidão alcoólica, falarei e me deixarei condenar se assim o caso for: sinto falta do tempo em que as mulheres não eram apenas homens sem pênis… em sua ausência da sociedade ocupavam um lugar muito mais feminino do que hoje quando não podem mais ser encontradas. Pronto. Falei. Linchem-me. Currem-me. Deem-me uma lição. Que diferença faço eu no mundo?
Não bebo, não sou igual a ninguém, nem de homem posso ser chamado! Não me enxergam, sou invisível para todos. Acabem comigo… Não acabem comigo. Ignorem-me como sempre. Mantenham-me no limbo do esquecimento, incapaz de me adequar à massa sem forma que são vocês.
Sentei-me, ainda a olhar as garrafas que me enviaram para um mundo de reflexões aleatórias.
Num bar praticamente vazio, qualquer um consegue se destacar. O barman perguntou o que eu beberia. Limpei o suor da testa com a manga da camisa. Estava quente como o inferno ali dentro.
Pedi uma cerveja. Um copo com o líquido cor de mijo foi colocado na minha frente. Bebi e o líquido gelado e amargo desceu por minha garganta. O mijo fazedor de homens.
Olhei a minha volta. Algumas pessoas com expressões que nada diziam estavam sentadas, solitárias, em mesas espalhadas. Eram solitários como eu. Não se adequavam à fôrma. Simplesmente não cabiam, ficavam apertadas ou folgadas demais. Tentavam ser homens, mas nunca conseguiriam. E se tentassem, estariam todos fadados ao fracasso.
Nightwish - Arabesque
A catapulta
catapultou
o catapultado.
Alguma coisa de útil nisso?
Não sei, me diga você.
Mas algo precisa ser útil?
Por que?
Praticidade zero.
Pragmatismo negativo.
Viva a inutilidade.
Morri.
Caramba, ela pensou ao sentar completamente exaurida ao fim daquele dia. Não foi um dia especial. Foi um dia como qualquer outro. Mas ela estava cansada. E percebeu que estava sempre cansada. Mas cansada do quê? Isso ela não tinha como responder. Ela olhava para os lados, as paredes azuis não mais lhe pareciam tão azuis quanto no dia em que as descobrira azuis. As cores adquiriam cada vez mais tonalidades mais apasteladas. Quando isso aconteceu? Certamente, ela também não sabia responder isso também. Questões pipocavam na cabeça em todos os momentos. Quando as cores cotidianas perdem a graça, o que podemos fazer? O que é possível fazer quando não há vontade de pintar as paredes? Vê-las perder totalmente a cor e se transformar em um cinza indistinto? Isso é inadmissível. É? Por quê? Ela acha que cinza é uma cor aceitável, um pouco monótona, mas tem o seu charme. Não tem? Por que não? De todo modo, ela acha que há algo faltando, definitivamente não são as cores nas paredes. É possível que sejam as cores das cortinas. Elas são brancas. Não. Não são as cortinas. Nem os quadros. Nem os armários. Nem as cores das almofadas. Nem a manta sobre a cama ou suas roupas ou os livros ou os filmes. Quem sabe sejam seus olhos, que perderam a sensibilidades para as cores, anestesiados e incapazes de perceber certas sutilizas das pequenas coisas, essas pequenas coisas que injetam novidades na enfadonha rotina. Por isso, o vazio. Vazio? Não é essa a palavra. Muito profunda, não é apropriada semanticamente. É mais um buraco isso que existe dentro dela. Ela se sente oca. Fecha o punho e bate nas costelas como quem bate numa porta. TOC-TOC-TOC. Um buraco. Um buraco. Uma porcaria de buraco. E ela sente que precisa enchê-lo. Um pouco de argamassa seria sufici——
Ela se distrai. O telefone está tocando.
Beirut - My family’s role in the world revolution